Galera

Galera
A maior parte dos seres humanos, por preguiça e comodidade, segue o exemplo da maioria. Pertencer à minoria é tornar-se vulnerável, expor-se à critica. Tomar consciência da normose e de suas causa constitui a verdadeira terapia contemporânea. Trata-se, também, do encontro com a liberdade. Seguir cegamente as normas é tornar-se escravo. Roberto Crema

Esse é nosso lema!!

Esse é nosso lema!!
ESSE É NOSSO LEMA!!!! "A amizade é uma alma que habita vários corpos. Um coração que habita várias almas" Aristóteles

BOAS VINDAS!

Querer mudar o mundo é um desejo saudável e totalmente necessário. " Para ser feliz, o ser humano precisa somente de duas coisas: cultivar sementes de paz em seu coração e ter bons amigos. " - Buddha

Espaço da Galera!!!!!!!!!!!!!!!!!!

As coisas mais simples são os melhores presentes.

Leveza pra conduzir a vida; Beleza, que vai muito além da estética;

Determinação, porque sem ela nada acontece, nada;

Harmonia, paz e alegria sempre.

Silvana Mara dias Souza

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Uma pequena joia.

Martha Medeiros

30/07/2014 | 05h01
Não sei se é de família ou hábito apenas da minha mãe, só sei que, entre nós, qualquer preciosidade é chamada de joia. Pergunto para minha mãe sobre um filme ou sobre um lugar que ela conheceu, e se ela responde que é bonito é porque é bonito, se responde que é interessante é porque é interessante, mas quando ela diz “é uma joia”, logo me sento e me disponho a ouvir os detalhes. 

E ela não diz joia referindo-se àquela gíria que não se usa mais. Se ela diz que é uma joia, é algo especial, em que se deve prestar atenção. E se ela diz: “É uma pequena joia”, aí é porque a coisa é grandiosa mesmo. 

Em casa sempre rezamos pela cartilha do “menos é mais”, preferindo as pequenas joias em detrimento das ostentosas. Um discreto ponto de luz, um brilhante comedido, algo que reina sem pompa, o clássico que não se pavoneia, a elegância que não é extravagante: isso.  

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Amigo: o seu bem mais valioso!

Sejam de infância, de chopp ou de confidência, amigos nunca foram tão importantes na vida como hoje



Texto: Com a vida dura que levamos, ter um amigo é ter um tesouro
Foto: Warner Bros. Consumer Products
A amizade é o relacionamento que tem mais a cara do nosso tempo. Ou talvez, mais ainda, do futuro. Livre, aberta, democrática, ela nos convida ao exercício da tolerância, da aceitação do outro exatamente como ele é. Além disso, nos faz provar um pouquinho do gosto do amor incondicional, aquele que não perde tempo em cobranças ou exigências. Ela é tão especial que, hoje, uma boa centena de pensadores, sociólogos, psicólogos e antropólogos se dedica inteiramente ao seu estudo.
Refúgio
A amizade tem uma dimensão muito maior agora do que, digamos, 50 anos atrás. Naquela época, boa parte do tempo livre das pessoas era ocupada pela família, com seus aniversários, casamentos, festas de Natal e intermináveis almoços de domingo. Hoje, a família numerosa fragmentou-se.  Além disso, os relacionamentos amorosos, outra fonte de grande interesse, já não duram tanto tempo como antigamente. O afeto dos amigos tornou-se, então, um refúgio.
Outro motivo para a alta crescente da amizade: a vida anda muito dura. A sociedade estimula o individualismo, a competitividade, a agressividade e a intolerância com a diferença. Exatamente por isso, aumenta a cada dia a sede das pessoas por valores mais humanos, como amor, confiança, respeito, tolerância e solidariedade, qualidades presentes em abundância nas relações entre amigos. Se não temos mais a família consangüínea para nos abastecer de compreensão e carinho, se a relação entre casais é cada dia mais instável, quem senão os amigos para fazer esse papel?
E mais um fator aumenta a importância desse sentimento: "Os vínculos de amizade tornaram-se um campo de experimentação da sociedade, um laboratório onde ela gesta os relacionamentos do futuro", diz Jorge Forbes. Isto é, a abertura, a aceitação e a flexibilidade que caracterizam as relações entre amigos serão cada vez mais comuns no trabalho, na família e na sociedade, afirma ele. Pais mais amigos, maridos e esposas mais amigos, chefes mais amigos. Um belo futuro.
Amigo é um ser diferente de nós
O próprio conceito de amizade já mudou muito. Antes, amigo era o que pensava igual à gente. Hoje, é possível dar um passo à frente. "Amigo também pode ser uma pessoa muito diferente de nós. Posso aprender a respeitar e admirar a singularidade do outro, sem que ele precise ser igual a mim. Não só. Também posso aceitar minha singularidade, sem querer agradar os outros", diz Forbes.
Parece mesmo que as pessoas estejam começando a aprender a se aceitar melhor umas às outras, concedendo um pouco mais de espaço para suas manias, defeitos e incoerências. É só dar uma olhadinha num dos seriados de maior longevidade da TV americana, Friends. Os personagens são todos diferentes uns dos outros. O que nos une é a força da amizade. Ou seja, a capacidade de sair um pouco de si mesmo para olhar o diferente com mais carinho e aceitação.
Tipos inesquecíveis
Há diferentes graus de intimidade e compromisso na amizade. Há o amigo de grandes confidências e o amigo para ir ao cinema e tomar chope. Amigos de infância ocasionalmente também voltam para nossas vidas. E sempre vamos nos lembrar com carinho daqueles amigos que nos ensinaram uma grande lição, que deram um apoio num momento muito difícil ou ainda com quem dividimos aventuras significativas. Uma grande sabedoria é distinguir quem é quem: não trocar confidências com quem se tem uma relação rasa, não exigir que os amigos de infância fiquem para sempre, não esperar que conhecidos e camaradas sejam capazes de arriscar o pescoço por nós. Cada um é um, e o maravilhoso da amizade é exatamente essa sua relatividade elástica. Reconhecendo os limites e capacidades (e, por que não, as funções) de cada amigo, podemos prolongar e cultivar amizades por muitos anos. É prudente identificar essas diferenças.
Mas difícil de encontrar mesmo é o amigo companheiro. A palavra "companheiro" significa exatamente “aquele que divide o pão”. Esse amigo dá um braço por você,enfrenta o que der e vier por sua causa. E está sempre prestando atenção no que você pode precisar.

sábado, 19 de julho de 2014

SOBRE A MORTE E O MORRER por Rubem Alves

Vá em paz, mestre.
Obrigada!
SOBRE A MORTE E O MORRER,
Rubem Alves
O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?
Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...
Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.
Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”
Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”
Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.
Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".
Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.
Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.
Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".
Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.
Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.
Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12-10-03. fls 3.
Vá em paz, mestre.

Obrigada!

SOBRE A MORTE E O MORRER, 
Rubem Alves

O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...” 

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...” 

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.

Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12-10-03. fls 3.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Nada é Certo!

"Ninguém avança pela vida em linha recta. Muitas vezes, não paramos nas estações indicadas no horário. Por vezes, saímos dos trilhos. Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos vôo e desaparecemos como pó. As viagens mais incríveis fazem-se às vezes sem se sair do mesmo lugar. No espaço de alguns minutos, certos indivíduos vivem aquilo que um mortal comum levaria toda a sua vida a viver. Alguns gastam um sem número de vidas no decurso da sua estadia cá em baixo. Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam inelutávelmente para trás, atolados no caminho. Aquilo que, momento a momento, se passa na vida de um homem é para sempre insondável. É absolutamente impossível que alguém conte a história toda, por muito limitado que seja o fragmento da nossa vida que decidamos tratar."
Henry Miller

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A ansiedade das escolhas!

Optar por isto ou aquilo faz parte da nossa rotina. Saber conviver com essas decisões pode ser libertador. Confira a reflexão!


Como escolher entre dois conjuntos de valores tão importantes?
Ilustração: Nik / Reprodução revista VIDA SIMPLES
"OK, então vamos esperar por sua escolha até amanhã de manhã. Pense bem antes de decidir."
A frase soou como uma ameaça. Eu tinha que decidir e não podia negar essa responsabilidade, já que corria o risco de perder tudo. Mas a escolha não era simples, pois, no fundo eu queria os dois. Um representava a liberdade, a aventura, a alegria de viver. O outro significava a sabedoria, o conhecimento, o futuro. Como escolher entre dois conjuntos de valores tão importantes? Como optar por um e abrir mão do outro que eu também queria tanto? Por que o destino estava fazendo isso comigo? Ó mundo cruel...
Mas não teve jeito, pois eu sabia que, se demorasse para decidir, ou não mostrasse firmeza em minha conclusão, não seria considerado maduro o suficiente para merecer nenhum dos dois. Acabaria tendo que me contentar com algum prêmio de consolação, e isso seria a pior coisa que poderia me acontecer naquela fase da vida. Então, armado de uma convicção artificial, comuniquei minha decisão:
- Então está bem, fico com a bicicleta! - e abri mão da enciclopédia.
Estávamos em véspera de Natal e eu tinha 11 anos. O que aconteceu naquela oportunidade foi uma espécie de iniciação à vida, que nada mais é que uma sucessão de escolhas. Parece que a única escolha que não fizemos foi a de nascer, porque daí para a frente, passada a primeira infância, começa nossa preparação para sermos responsáveis. Tem início o desenvolvimento de algo chamado "consciência", que, em última análise, é a autonomia para cuidar do destino, escolhendo os caminhos da vida. Amadurecer, descobri, é assumir a responsabilidade por suas escolhas.
Eu queria muito aquela bicicleta. Qual é o garoto que não quer? Desejava sair por aí, com os colegas ou mesmo sozinho, deslocando-me com rapidez, sentindo o vento, conhecendo outros bairros da cidade. Mas também estava de olho na tal enciclopédia, que, para mim, era uma espécie de passaporte para o conhecimento. Com a bicicleta, poderia passear pela cidade - pensava -, e com a enciclopédia, poderia viajar pelo mundo.
Prevaleceu a liberdade do vento, não a das letras, como seria de esperar de alguém que mal encerrava a primeira década de vida. E aquela bicicleta me deu muita alegria, acredite. Nunca me arrependi da escolha, até porque mais tarde, em outro Natal, a enciclopédia veio, ainda que não tenha vindo o aparelho de som - outra escolha/troca.
A tirania do"ou"
Um dos personagens mais explorados pela literatura alemã é o de um homem que fez uma escolha perigosa: Fausto. Ele foi inspirado em uma pessoa real, o médico Johannes Georg Faust, que viveu entre 1480 e 1540 e que era também estudioso de alquimia e magia. Sempre insatisfeito com o conhecimento disponível, ansioso por saber mais, acabou por dar origem a Fausto, que teve inúmeras interpretações na literatura germânica, sendo que a que predomina é a do mais importante escritor alemão, Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832).
A primeira parte da versão de Goethe foi publicada em 1806 e conta que Fausto, querendo superar os conhecimentos disponíveis na época, ambicioso pelo saber, acabou fazendo um pacto com um demônio, Mefistófeles. Durante 24 anos ele não envelheceria, experimentaria todos os prazeres e teria acesso a conhecimentos novos. Tudo isso em troca de sua alma, que passaria a ser posse do maléfico pela eternidade.
Fausto aceita, pois seu desejo de saber é superior a tudo. O que ele não contava é que se apaixonaria por Margarida e, ao se ver perto de seu prazo, vê-se também obrigado a abandoná-la. O mito fáustico, em todas as versões, joga com a ideia da perda como subproduto da escolha. E essa perda pode ser desesperante, como no caso do personagem, ou pode ser, em sua versão mais humana, no mínimo, a causa de grandes ansiedades.
A ansiedade é, sim, um dos males da modernidade. Não há pessoa que não relate que é acometida, eventualmente, por uma "crise de ansiedade", caracterizada pela sensação de dúvida, incerteza, desconforto. A pessoa ansiosa gostaria de não estar onde está, ou pelo menos gostaria de não estar vivendo a situação que lhe causa ansiedade - mas, por outro lado, sabe que não tem como evitar. Todos somos ansiosos, em graus maiores ou menores.
E a causa mais comum de geração de ansiedade atualmente é, como vimos, a necessidade de fazermos escolhas. Sim, pois a cada escolha você tem que sofrer com as renúncias que ela acarreta. Essa é a tragédia da escolha. O imperativo do "ou". Ou isto ou aquilo, os dois não dá, explica a vida - e a gente aceita com resignação.
Escolher é trocar
A língua inglesa tem uma expressão que define bem a ansiedade da escolha: trade-off. Sem tradução literal, trade-off significa escolha, mas também quer dizer troca. Em síntese, escolher significa trocar uma coisa por outra. Ao escolher a bicicleta, abri mão da enciclopédia. Foi uma troca e, convenhamos, a melhor que podia ter feito naquela ocasião. No ano seguinte, troquei um aparelho de som novinho pela coleção de livros que esperei por um ano. E por aí vai.
Trade-off é uma expressão muito usada nas empresas, e faz parte do planejamento estratégico. Os empresários e executivos sabem que sempre há um preço a pagar. Por resultados, terão que fazer investimentos. Se buscarem inovação, terão que admitir alguns erros. Se optarem por economizar, terão que reduzir os investimentos. Na economia do país, se a opção for pelo controle da inflação, sabe-se que a taxa de crescimento será menor. "Não há almoço grátis", dizem os economistas. Trata-se de um postulado da economia que lança mão da obviedade que não dá para, ao mesmo tempo, comer a refeição e ficar com o dinheiro.
Um dos melhores exemplos de trade-off estratégico é encontrado não na economia, mas no jogo de xadrez - e, nesse caso, pode receber o nome de gambito, que não é, portanto, apenas o codinome das pernas finas.
Nesse jogo, gambito é o sacrifício de uma peça em troca de alguma vantagem, que pode ser outra peça ou espaço, desguarnecimento do adversário, linhas diagonais ou simplesmente tempo. O outro jogador pode aceitar ou refutar a oferta, pois sabe que há uma intenção por trás, uma espécie de jogada oculta. O Gambito do Rei é uma jogada em que o jogador de peças brancas oferece um peão logo no início do jogo e, aparentemente, desprotege o rei, mas, na prática, obtém uma liberdade de ações bem maior a partir disso, ganhando o domínio que vem da iniciativa. Tanto essa jogada quanto o Gambito da Dama são estratégias de quem sabe jogar e não de iniciantes sem técnica nem equilíbrio emocional.
Na vida também é assim, mas é claro que há variações importantes. Todos os dias fazemos escolhas soft, cujos enganos não provocarão maiores consequências. Se você errar no prato no restaurante ou no filme na locadora, ou se escolher uma roupa leve num dia em que faz frio, tudo bem, a encrenca não é tão grande assim. O complicado é errar nas escolhas hard, como a profissão, os investimentos ou a pessoa com quem se casar e compartilhar a vida. Felizmente, fazemos mais escolhas soft do que hard neste passeio pela vida.
A possibilidade do "e"
Mas nem tudo está perdido. Disse Einstein que nós não podemos resolver um problema usando o mesmo estado mental que o criou. É necessário buscar novas possibilidades, aceitar a existência de caminhos não vistos no primeiro olhar. E, nessa busca, sempre podemos contar com a possibilidade do "e" em vez do "ou". A inclusão como alternativa à exclusão.
Nem sempre dá, mas não podemos descartar essa possibilidade, e até contar com ela. Aliás, há situações em que essa é a única saída. Voltando a falar dos economistas e dos pensadores no futuro da sociedade humana, há um tema que gera muita polêmica. Trata-se da disputa entre crescimento da economia e a sustentabilidade do planeta.
Os que pregam o crescimento econômico são acusados pelos ambientalistas de não se preocuparem com a sustentabilidade do planeta, e estes são chamados por aqueles de patrocinadores do atraso. Durma-se com um barulho desses. Felizmente existem cérebros atuantes, cientistas, estadistas, pensadores que afirmam ser possível promover desenvolvimento protegendo a natureza. Desenvolvimento com sustentabilidade. Geração de riqueza e preservação do meio ambiente.
Para isso, claro, temos que falar de coisas novas, como reflorestamento, reciclagem, eficiência, novos materiais, pesquisa pura e aplicada, consumo consciente. Novos modelos mentais. Como se vê, fazer a opção pelo "e" requer investimento, tempo e inteligência. É mais fácil escolher um, ignorar o outro e tentar dormir tranquilo.
A inclusão é a solução ideal, quando possível. Senão, é necessário escolher e arcar com todas as consequências que fazem parte do pacote. O direito de escolher é atributo do mundo livre, o que é muito bom, claro. Nos países totalitários, em que ditadores comandam tudo com mão de ferro, a população não tem que fazer muitas escolhas, porque o estado faz por elas.
Viver com liberdade aumenta a responsabilidade e a ansiedade, mas viver sem ela aumenta o sentimento de impotência e o resultado pode ser a tristeza e a depressão. Sinceramente, se esse é o preço, fico com a ansiedade. E viva a liberdade de escolha.
* Eugenio Mussak não se arrepende de ter optado pela bicicleta e não pela enciclopédia

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Qual o verdadeiro valor do dinheiro?

Compreenda o verdadeiro valor do dinheiro e valorize as atitudes que podem mudar o mundo

O valor do dinheiro é o valor que atribuímos a ele
Foto: Reprodução/ Vida Simples
O dinheiro em si não é lá muita coisa: um pedaço de papel. O que conta é o valor que atribuímos a ele. Muito antigamente, quando precisávamos de algum produto ou serviço, saíamos com nosso gado ou nosso trigo para trocar. Dava o maior trabalho. Com o dinheiro, os negócios ficaram mais simples: um tanto de ouro e prata valia pela mercadoria. Mas isso foi muito antigamente, uns dois mil anos antes de Cristo, porque a economia hoje é bem mais sofisticada, o que, no caso, nada tem a ver com elegante: dos seis bilhões de habitantes do planeta, dois bilhões estão excluídos do cres-cimento econômico.
Para muita gente, isso independe de nossas atitudes, mas os fatos apontam no sentido oposto. Vale a pena prestar atenção nas palavras da norte-americana Hazel Henderson, uma das futuristas mais prestigiadas em todo o mundo. Nos livros "Construindo um Mundo Onde Todos Ganhem" e "Além da Globalização" (Cultrix-Amana-Key), ela mostra que a saída para a sinuca planetária está na aplicação de alguns conceitos-chave como cooperação e visão sistêmica (a velha e boa idéia de que neste mundo está tudo conectado).

Como Henderson, economistas ligados ao futuro alertam para a forma perigosa como o dinheiro se descolou da realidade. Comparam a economia global a um cassino onde as apostas diárias envolvem capital virtual, estimado em 80 a 100 trilhões de dólares, para um produto mundial de apenas 25 ou 30 trilhões de dólares. Além de arriscadas, as operações absorvem recursos que poderiam ser investidos em desenvolvimento social.

Cerca de 95% do dinheiro que circula hoje pelos bancos de comércio internacional não são destinados à compra de produtos tangíveis e sim à compra e venda do próprio dinheiro, travestido em mercadoria cara e rara, como aponta Peter Russel, físico, psicólogo e cientista da computação, no livro O Novo Negócio dos Negócios (Cultrix-Amana-Key). Por mais que estejamos distantes das altas folias financeiras, quem alimenta essa máquina em alguma instância somos todos nós, dependentes do dólar e dos arranjos que o favorecem continuamente no mercado mundial.

O que nos diz respeito diretamente é a convivência sustentável com o planeta. O mundo é bom, mas finito. Tudo o que ganhamos e gastamos implica em incontáveis custos ambientais - aqui mais, ali menos. Cabe a cada um a responsabilidade pela captação e pelo destino final do dinheiro.

Resgate da riqueza real

Força fluida que é, o dinheiro agora começa a seguir uma nova tendência, que o faz calar, obedecer e ajudar na transformação de vidas e valores, resgatando uma riqueza real - que não é a do dólar ou a do ouro. Somos levados a acreditar que nossa participação individual no mundo é irrelevante, mas, na prática, nossas ações influem em dimensão planetária.

"O bater de asas de uma borboleta na China pode causar um tornado no Kansas amanhã", na metáfora atribuída ao meteorologista Edward Lorenz, do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Vivemos em rede, ligados uns aos outros seres e a toda a natureza, já sabemos disso, e tudo o que temos a fazer é agir de acordo.

Já age assim o consumidor ético, identificado em pesquisas mundiais. Entre os valores dessa tribo emergente, a dos chamados "criativos culturais", estão a crença em uma conexão entre todos os aspectos da realidade, o cultivo da espiritualidade e da conciliação (no lugar da competição), entre culturas, homens e mulheres, homem e natureza e ramos de negócios.

Ao mesmo tempo, a expressão "alma do negócio" ganha significado mais próprio: empresas aderem à espiritua-lidade não mais como modinha "nova era" - até porque de nova não tem nada essa sabedoria que transforma, aos poucos, os jeitos de liderar, os processos de trabalho e os resultados. Pesquisas da empresa de consultoria McKinsey & Co. mostram que quando a dimensão espiritual chega às companhias, a produtividade aumenta, enquanto as demissões e licenças médicas decrescem.

"Se vives de acordo com as leis da natureza, nunca serás pobre." A sábia frase de Sêneca (c. 4 a.C. - 65), filósofo central do estoicismo romano, não podia ser mais afinada com os estudos dos futuristas contemporâneos.

Dê valor real ao dinheiro

Numa exposição recente, a cenógrafa e diretora de teatro Bia Lessa colocou lado a lado uma bala de revólver e duas apostas da megasena: o mesmo valor monetário é atribuído a um sonho de fortuna e à possibilidade da morte. Cada um decide o que fazer com o que tem no bolso: é isso que, no fim das contas, cria o valor que conta.

Da mesma forma, podemos zelar pela ética no nosso trabalho e na organização a que pertencemos. É difícil, porque a sociedade ainda é dependente dos recursos naturais, o que, por sua vez, produz débitos sociais, numa roda louca de causa e efeito. Mas é possível, e recomendável, identificar em que nível a empresa ou o negócio com o qual estamos envolvidos lida com o planeta e a família humana.

Não faz mais sentido acomodar-se na crença de que organizações ou autoridades cuidam disso para a gente: consciência humana é o ingrediente principal da macrotransição que o planeta pede, na análise do filósofo húngaro Ervin Laszlo, presidente do Clube de Budapeste (sociedade humanista internacional que entre seus integrantes conta com o Dalai Lama e o músico-ativista Peter Gabriel).

A tarefa de reestruturação global exige abordagens que transcendam valores monetários. Segundo Hazel Henderson, o PIB e outros indicadores que deixam de fora recursos naturais e humanos estão obsoletos, tanto para medir progresso quanto para orientar as economias do mundo. No cotidiano mais imediato não pode ser diferente: se nossa economia doméstica não é justa com a natureza e as outras pessoas, nosso dinheiro é de pouco valor, por maior que seja o saldo bancário.

Compre o que não corrompe

Num país como o Brasil, que ainda não atingiu níveis básicos de satisfação material, soa utópico pregar redução de consumo. Mas é urgente, se não consumir menos, consumir de maneira diferente, inteligente, buscando produtos e serviços que não agridam o ambiente, colaborem para a distribuição de renda, não usem mão-de-obra infantil e se alinhem ao conceito geral de sustentabilidade. Não basta ver o preço: por trás de cada mercadoria há outras informações importantes, à disposição de consumidores alertas.

Use os usados e troque o que dá para ser trocado

O homem ocidental médio consome hoje 100 vezes mais recursos que seu antepassado no começo da Revolução Industrial. No período, a população aumentou dez vezes. O resultado do cruzamento desses dois crescimentos é um aumento mil vezes maior do consumo.

Chique, hoje, é economizar matéria-prima para o mundo e contrariar a obsolescência planejada garimpando utilidades nos mercados de usados. Na última festa de entrega do Oscar, celebridades exibiram autênticos modelos vintage - ou roupa de segunda mão, em linguagem menos afetada. Faça como Hollywood: troque o shopping pelo brechó. E condicione-se desde já ao recondicionado, porque "a única economia realmente sustentável é aquela com crescimento material zero", como diz o economista Richard Douthwaite, no livro The Growth Illusion.

Enquanto isso, a incerta economia argentina fomentou a propagação das feiras de escambo de produtos, serviços e saberes, que, à margem dos problemas da moeda, vêm melhorando a vida das hordas de confiscados, desempregados e excluídos em geral. O primeiro clube surgiu em 1995 em Bernal, província de Buenos Aires, com 20 pessoas trocando comida, roupa, artesanato, tratamentos e consertos domésticos. Hoje, há 15 mil clubes desse tipo no país, envolvendo diretamente seis milhões de pessoas e beneficiando 40% da população.

Já ouviu falar em "tupi", "zumbi", "chê" ou "pinhão"? São moedas sociais e circulam em feiras de trocas de várias regiões brasileiras. O Brasil tem 25 clubes de escambo solidário. "Sem assistencialismo, as pessoas resgatam sua dignidade", explica o contador Carlos de Castro, organizador dos clubes paulistas.

Dicas para montar um clube de trocas, passadas pelo agrônomo Fábio Luiz Burigo que organiza as feiras em Florianópolis: limitar o número de participantes (60 a 80 pessoas), para fortalecer a convivência; extrapolar a simples troca de bens e serviços, criando atividades que ampliem a qualidade de vida dos integrantes; valorizar novas idéias; evitar controle, cultivar um clima em que a incerteza faça parte do processo."Isso é vital no gerenciamento de mudanças evolutivas", diz ele.

Receba para compartilhar

Os cabalistas ensinam que o melhor jeito de ganhar dinheiro é deixar parte dele ir. Segundo essa tradição, o ato de doar cria um circuito dinâmico, sem o qual a energia monetária fica bloqueada. Como em qualquer circuito sobrecarregado, o resultado da acumulação é colapso e caos. Isso porque dinheiro, na Cabala, é manifestação material de energia divina. É uma bênção, ou uma espécie de empréstimo.
"Estamos todos no mesmo barco. Cada vez mais empresas se preocupam em canalizar o dinheiro como energia positiva, para ajudar terceiros", diz o professor Shmuel Lemle, do Centro de Cabala do Rio de Janeiro. Lemle lembra que abrir mão de parte do que chega às nossas mãos é trabalhar em benefício de todos e em benefício próprio.

Faça sua parte com fé

Exemplo máximo de atitude pessoal com a economia global, o pacifista Mahatma Ghandi escreveu que ninguém precisa entrar para a história para fazer o mundo melhor: "Seja você a mudança que quer ver no mundo". Hoje, uma ação individual mais comprometida com o conhecimento e a abundância conta com vento a favor, porque há uma conspiração universal fazendo o dinheiro mudar de mãos. A conspiração visível é o milagre da multiplicação das ONGs, de um lado, e a nova transdisciplinaridade, de outro. Só mesmo ciências cooperadas podem desfragmentar este mundo e fazer frente aos complexos problemas globais.

O que é mesmo que manda no mundo?

Alguns sinais de que o homem e o meio falam mais alto, enquanto o culto ao dinheiro arrefece Cooperação - A rede brasileira de socioeconomia solidária foi criada em 2000, com 80 entidades. Hoje, reúne 400 associadas envolvidas na construção de cadeias cooperativas, na divulgação e comercialização de produtos e na educação para um consumo mais ético (www.redesolidaria.com.br).

Simplicidade - Gastar menos é viver mais, crêem os militantes da Simplicidade Voluntária, um movimento que cresce nos Estados Unidos pregando vida frugal, combate ao consumo desprovido de significado e volta a valores essenciais - 28% da população americana já navega na contramão do consumo exagerado.

Criatividade - Está chegando ao mercado uma máquina que lava louça em três minutos e consome 2 litros de água, contra 18 litros dos modelos tradicionais. O gasto de energia é 80% menor, garante a empresa gaúcha Luxia, que investiu 500 mil dólares no projeto.

Solidariedade - O ex-beatle Paul McCartney cobrou 1 milhão de dólares para fazer um show exclusivo na festa de aniversário de Wendy Whitworth, produtora executiva do canal de TV CNN (presente-surpresa do marido). O cachê foi doado à Adopt-a-Minefield, uma instituição que ajuda vítimas de minas terrestres.

Escolha - Um refrigerador de ar a partir da evaporação da água foi desenvolvido em Campinas como alternativa ecológica ao ar-condicionado. O Ecobrisa é produzido pela empresa Vida e tem a chancela do Greenpeace. O consumo de energia é dez vezes menor que o de um aparelho tradicional.

Ética - O Fundo Ethical é o primeiro criado no país com base em critérios de responsabilidade ambiental, social e corporativa. Foi lançado no ano passado pelo Banco Real ABN AMRO Bank, valorizando práticas éticas. As empresas são selecionadas por um conselho multidisciplinar, formado por gente especializada em meio ambiente e gestão corporativa e financeira.

Valores - Pesquisa da Associação Brasileira dos Analistas do Mercado de Capitais de São Paulo mostrou que 84% dos analistas consideram as informações sociais em mais da metade de suas avaliações. A maioria (79%) diz que informações de natureza social, ambiental, cultural ou comunitária podem alterar o preço dos papéis de uma companhia.

Transparência - A adoção de boas práticas de governança corporativa se traduz em ganhos para as empresas: valorização de preço das ações, aumento do volume negociado e queda de volatilidade. É o que atesta estudo recente (março) feito pelo professor Antonio Gledson de Carvalho, da USP, a pedido da Bovespa.

Parcimônia - A ong Água e Cidade desenvolveu meto-dologia para avaliar e quantificar o compromisso de empresas com o uso racional da água. O grupo já formou 1 046 "gestores da água" - funcionários preparados para coordenar ações dentro de seus locais de trabalho e medir resultados (www.aguaecidade.org.br).

Troca - A fábrica de papel Ripasa vem melhorando a vida de catadores de lixo - e vice-versa. Depois de dar treinamento aos 30 integrantes da cooperativa de reciclagem do município de Embu, SP, a empresa passou a comprar deles todo o material de papel e cartão arrecadado. O trabalho de separação e venda rende a cada catador cerca de dois salários por mês.

Consciência - A Companhia Suzano desenvolveu o primeiro papel offset reciclado em escala industrial, disponível para o segmento gráfico. O Reciclato vem quebrando preconceitos em toda a cadeia de produção. Ao produzir 400 toneladas/mês de papel, a empresa retira 100 toneladas de lixo das ruas por mês.

Limpeza - A ThyssenKrupp Elevadores já recicla 100% dos resíduos da sua fábrica. O programa de autogestão ambiental da múlti alemã incluiu a despoluição de um lago na área da empresa, em Guaíba, RS.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A arte de envelhecer!

O passar dos anos pode trazer perdas e limitações, mas também prazeres inesperados e uma sensação de liberdade enorme. Saiba como lidar com isso e, assim, aproveitar a vida em qualquer idade.



Eleonor Camargo vai se casar no próximo domingo e há quatro semanas parte de sua atenção está voltada para o vestido de noiva (musseline de seda champanhe?), o buquê (rosas vermelhas?) e as músicas (Canon, de Pachelbel, no final da cerimônia?). Já seu noivo está às voltas com o aluguel de mesas e cadeiras para o jardim.

Foi nesse período feliz, mas tenso, que um dia Eleonor se olhou no espelho e pensou que o seu rosto não seria assim para sempre. Pensou no seu envelhecimento e como seria viver junto com o seu companheiro quando fossem velhinhos. Refletiu... Eles gostavam da presença um do outro, da energia que trocavam no toque, das conversas que tinham. A noiva lembrou-se do que escreveu o psicanalista e educador Rubem Alves: "case-se com alguém com quem goste de conversar." Portanto, com o tempo, o que era essencial nesse relacionamento não iria se alterar.

Não, Eleonor não é uma jovem noiva. Ela tem 57 anos, e o noivo, Antonio, 63. Estão realizados, inteiros, e evidentemente felizes. Mais uma vez na vida, apostaram na felicidade, mas agora sem muitas expectativas.
Viram? Há vida depois dos 60, 70, 80...

Eleonor e Antonio souberam compensar o seu envelhecer com entusiasmo, esperança, sensibilidade, criatividade. Fiquei surpresa com a quantidade de boas qualidades que eles conseguiram colocar no lugar das benesses de ser belo e jovem. Por isso, começo esse artigo com esse casamento, uma cerimônia feliz que a gente associa apenas à juventude e à beleza. Vê-los maduros e plenos de contentamento é uma ode à vida, e ao envelhecer com sabedoria. Eles mostram como é possível aceitar o envelhecimento, inevitável, com consciência, serenidade e alegria. Os dois descobriram muitos presentes escondidos na maturidade, que certamente só chegam depois do enfrentamento de limites, sofrimentos e obstáculos. Envelhecer pode ser um pouco mais difícil para o corpo, é verdade, mas para a alma pode fazer um bem incrível. O casal é a prova disso.


Enfrentando a crise

A antropóloga carioca Mirian Goldenberg começou o seu livro A Bela Velhice (Record) com o mesmo desafio que enfrento agora: mostrar que a harmonia, a alegria e o bem-estar podem estar presentes com muita intensidade no processo do envelhecimento. Numa sociedade que estimula o contrário disso, e que dá valor apenas ao que é jovem e belo, esse pode ser um desafio e tanto. "Quero compreender se há algum caminho para chegar à última fase da vida de uma maneira mais digna, plena e mais feliz. Meu objetivo é descobrir os passos necessários para construir minha própria bela velhice", diz ela. Para isso, assegura Mirian, é preciso dar sentido maior e mais profundo para a vida. Casar, ter filhos e conquistar sucesso na carreira deixam de ter tanta importância. Ser jovem e bonito também. Começa a acontecer um processo de dar um novo significado para a existência.

O psiquiatra austríaco Victor Frankel, em seus mais de 30 livros, ajuda na compreensão desse processo. Ele dizia que o desejo de dar um novo significado para a vida pode começar com uma sensação difusa de um "vazio existencial" - um sentimento de inutilidade e falta de sentido da própria vida. Podemos dizer que esse é o começo da crise do envelhecimento. A verdade é que o sucesso em várias áreas da vida é muito difícil, e que muitas vezes o que a sociedade diz que nos traria mais felicidade não traz.

Também podemos perceber que o não cumprimento das metas impostas pela sociedade pode gerar uma sensação de fracasso. Escreveu Frankel: "Não procurem mais o sucesso. Quanto mais você o procurar e o transformar em um alvo, mais vai errar". Que alívio, não precisamos mais "ter de" nada. Podemos ser mais livres, autênticos, procurar o que realmente gostamos de fazer, o que dá tesão na vida. E uma das qualidades para se sentir feliz, de acordo com ele, é sentir-se livre do que é imposto, do que nos ensinaram que traria felicidade, mas que nunca trouxe.
Que maravilha.

E qual seria o primeiro passo para sentir isso? Diante da crise, não a torne pesada demais. Ao analisar o comportamento dos sobreviventes dos campos de concentração nazistas, por exemplo, Frankel descobriu que os que estavam em melhores condições físicas e psicológicas eram justamente aqueles que tinham mais bom humor e leveza - e que isso era perfeitamente possível até em situações insuportáveis e adversas como aquela. Portanto, aceitar o envelhecer com certa dose de humor é muito sábio, e faz muito bem para a alma.


Envelhecendo, eu?

Se você olha no espelho e vê a sua imagem, certamente não afirma que seja a de um velho. É possível até que, com uma certa sorte genética e cuidados básicos, você possa aparentar dez ou 15 anos a menos. Sorte sua.

Mas não dá para se enganar. A curva da sua estrutura biológica cai inevitavelmente depois de atingir seu ápice aos 25 anos, e o seu corpo começa sua lenta volta para a terra. A boa-nova é que, cada vez mais, o envelhecer deixa de ser traduzido por decrepitude, fragilidade e doença. As pessoas estão se cuidando mais e mais cedo, os recursos para compensar o processo natural do envelhecimento se multiplicaram por mil, e os exemplos de gente mais velha e ativa aumentaram com uma velocidade espantosa. "É um erro acreditar que velhice seja um sinônimo de doença. A maior parte das pessoas na faixa dos 60 anos ou até 70 está bem", diz a designer e empresária Deana Guimarães, criadora de um portal que oferece uma gama de produtos para a terceira idade. Ela mesma, já com 60, é um exemplo disso. "A gente sabe que o contorno do rosto não é o mesmo, e que a energia não mais se assemelha à dos 20 anos", reconhece. "Mas não me sinto 'idosa' em nenhum grupo de que participo, e nem sou tratada assim. Sei que estou envelhecendo, mas não me sinto velha", conta.

E vamos ser sinceros: o processo do envelhecimento não começa nem aos 40 e nem aos 50. Com 20 anos, você vai à balada, dorme quatro horas e aguenta superbem o pique no dia seguinte. Já na faixa dos 30, a história é outra. Com 40, então, nem pensar. Três dias de alta madrugada contínuos já são suficientes para matar. Quem é velho, então? Os chineses fazem uma classificação interessante da velhice: os jovens velhos ficam numa faixa bem elástica, dos 45 anos, aproximadamente, até aos 80. A partir disso são considerados velhos maduros.

E o comportamento nessa faixa muito elástica de jovens velhos muda com rapidez. Os homens e mulheres maduros de hoje não têm as mesmas reações e atitudes dos jovens velhos de 30 anos atrás, por exemplo. Deana Guimarães afirma, por exemplo, que a solidão não é mais a principal queixa dos idosos que frequentam seu site. "Eles estão procurando grupos de pessoas com os mesmos interesses, se socializando. Também procuram se cuidar mais, se prevenir, e ter uma melhor qualidade no último trecho da vida", diz ela. E existe uma crescente demanda para que se abram cada vez mais grupos de apoio e organizações especializadas nos interesses de quem tem mais de 60, faixa que já responde por 15% do povo brasileiro.


A pressão social

Se você tem mais de 30, biologicamente já começou seu processo de envelhecimento. "E quem te diz primeiro que você envelheceu são as pessoas, não é o espelho. Primeiro começam a te chamar de 'senhora', depois de 'tia'... Até que, um dia, te cedem o lugar no ônibus", diz a administradora de empresas Maria Costa Fernandes.

Isto é, o envelhecer é também um fenômeno social, e não apenas algo que acontece no seu mundo interno. "Se você pudesse envelhecer sozinha e em paz, sem ninguém te apontar a ruga ou o sobrepeso, seria mais fácil. Mas não é assim", diz Maria Costa. Em outras palavras, as pessoas podem se dar conta disso antes de você. "A saída é aceitar, perceber que algo mudou, mas que nem por isso o mundo acabou", diz ela.

Segundo a antropóloga Mirian Goldenberg, as reações perante o envelhecer podem mudar de acordo com o meio social e também segundo a cultura de um país. No livro Coroas: Corpo, Envelhecimento, Casamento e Infidelidade (Record), ela toca num ponto importante desse processo. Por meio de dezenas de entrevistas, ela notou, por exemplo, que as alemãs estavam menos obcecadas com sua estética corporal do que as brasileiras. Envelheciam mais tranquilamente, sem querer cancelar sua idade, embora namorassem ou tivessem um companheiro.

Em resumo: lutamos desesperadamente para não envelhecer, pois se admira com muita intensidade a ideia de perfeição de um corpo jovem e bonito. "Por isso tenho investido em revelar aspectos positivos e belos da velhice, sem deixar de discutir os aspectos negativos", diz a antropóloga. E uma das coisas que nos libertará da corrida frenética rumo ao rejuvenescimento a qualquer custo é nos lembrar que somos mais do que um corpo.

Na abertura do livro Memórias de um Envelhescente (Regência), escrito pela médica Judith Nogueira, o geriatra Franklin Santana Santos, que assina a apresentação da obra, revela o outro lado da história. "Envelhecer é uma experiência psíquica e espiritual profunda de enriquecimento da personalidade, do espírito", escreve. "Ser velho é estar na vanguarda do processo evolutivo, pensando aqui do ponto de vista material estritamente darwiniano, ou em uma perspectiva mais transcendental, na qual ser velho é o crème de la crème". Já a autora Judith Nogueira reflete sobre o processo de envelhecer, e aproveita a expressão envelhescente para definir quem atravessa essa fase com características hormonais e psicológicas próprias, tal como a adolescência. "Aos 40 anos não somos totalmente velhos, mas caminhamos para tal. Assim como a adolescência é o vestibular para a idade adulta, os 40 anos o são para a velhice; como se representassem a admissão para a segunda metade da vida", diz a médica.

Então, que tal fazer um meio termo disso tudo? Nem obcecado demais com oenvelhecimento do corpo e com o desejo de estar sempre jovem, nem relaxado e displicente demais com o próprio envelhecimento. Em quase tudo, o caminho do meio dá certo.

Numa palestra para o TED, o médico cirurgião cardíaco (e celebridade) Mehmet Oz dá cinco pontos básicos que ajudam a conservar a saúde física durante o envelhecer: monitoração da pressão arterial, controle do estresse (mediante meditação, ioga ou tai-chi, por exemplo), corte de cigarro e toxinas, 30 minutos de exercícios diários e uma dieta saudável que seja também gostosa. Não é nada tão difícil assim e, segundo ele, esses poucos itens são capazes de manter uma vida saudável por muitos e muito anos.
Entre quatro paredes

Uma peça célebre, Huis Clos, ou Entre Quatro Paredes, escrita pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre, traz a discussão de um grupo de personagens sobre os limites e obstáculos da vida num cenário claustrofóbico. Aos poucos, percebe-se que eles estão mortos e no inferno.

Se o envelhecer for centrado na preocupação com o corpo e com as exigências individualistas do ego, as paredes irão se fechar e se estreitar cada vez mais, pois as perdas e limites serão bem mais evidentes. O envelhecimento se transformará num inferno. Mas essa não é, claro, a única alternativa. O envelhecer implica uma troca de códigos, valores, referências e metas. É preciso se reinventar completamente, substituir e compensar. Se a ênfase foi colocada na direção do autoconhecimento e da doação, seguindo os passos do espírito, as paredes automaticamente se abrirão, trazendo mais paz interior, amor e oxigênio para sua existência. O envelhecer poderá se tornar, dessa maneira, um delicioso paraíso.

O psicanalista suíço Carl Gustav Jung dizia que durante metade da vida você se volta para fora, para o ter (uma carreira, um casamento, uma família, um negócio, uma casa...). E que, na outra metade, o processo começa a se inverter: você se volta para o ser, para o universo interior, para a espiritualidade. É a fase ideal para compartilhar o que aprendeu na sua existência com quem é mais jovem. Porém, para que isso de fato aconteça, é necessário soltar-se e se divertir com as possibilidades que a vida lhe apresenta. Exatamente como faria uma criança.


Liane Alves assina boa parte de nossas matérias de capa. E acredita que todos nós devemos cuidar do corpo sem esquecer do espírito.

domingo, 6 de julho de 2014

Você sabe o que é simplicidade voluntária?

Conheça a simplicidade voluntária, um estilo de vida que perverte velhos conceitos, e descubra de uma vez por todas como simplificar sua vida


O movimento simplicidade voluntária cutuca velhos conceitos do viver bem
Foto: Reprodução
As remexidas em velhos conceitos são algumas das propostas da simplicidade voluntária, um estilo de vida que passou a se propagar nos Estados Unidos nos anos 1970, em resposta à sociedade de consumo, ganhou ecos em países como Canadá e França e, devagarzinho, chega ao Brasil. Pesquisas estimam que, nos Estados Unidos, cerca de 20 milhões de pessoas, 10% da população, estejam optando por uma vida materialmente mais comedida, pautada na convivência com a família, os amigos e a comunidade e no respeito à natureza, no sentido de fazer o máximo para preservar seus recursos. "Uma maneira de viver que é exteriormente mais simples e interiormente mais rica", diz o escritor norteamericano Duane Elgin em seu livro Simplicidade Voluntária. O título do livro, lançado em 1981, deu nome a essa forma de viver.
A expressão simplicidade voluntária deixa claro que não se deve confundir simplicidade com pobreza. Simplicidade é escolha, pobreza não. Simplicidade tampouco tem a ver com negar a tecnologia - afinal, ela é muito útil. E muito menos significa mudar-se para uma cabana na floresta. A idéia é simplificar a vida onde se está, com o que se tem - e a maior parte das pessoas que já fazem isso vive nas cidades.

Dinheiro é tempo

Além do tempo e da energia investidos para ganhar o dinheiro necessário para comprar bens, também é preciso mantê-los. Se tem dois carros em vez de um, vai ao mecânico o dobro de vezes. Existem pessoas que parecem viver para resolver os problemas dos bens materiais que têm. Por isso, vale a reflexão: o quanto o tempo e a energia investidos para a aquisição de coisas podem minguar as oportunidades de conviver com as pessoas, de buscar a espiritualidade, o autoconhecimento e o senso de comunidade?

A escritora Vicki Robin, uma das precursoras da simplicidade voluntária nos EUA, recomenda: tenha uma relação mais pessoal com o dinheiro. Ele é sua energia vital. Você paga pelo dinheiro com seu tempo, afirma Vicki. Quando você gasta dinheiro, não está gastando um papel emitido pelo governo, mas as horas que você investiu em seu trabalho. E, "porque você se ama e se respeita, é melhor gastar o dinheiro com coisas que tenham valor para você", diz.

Um homem é rico na proporção do número de coisas de que pode prescindir, afirma o filósofo americano Henry David Thoreau em seu livro Walden Ou a Vida nos Bosques. A verdadeira riqueza não estaria nos bens materiais, mas sim na qualidade das relações consigo mesmo e com os outros. O consumo em excesso poderia, então, ser um sintoma do vazio em outras áreas da vida, uma forma de compensação. O bom materialista é aquele que tira o proveito máximo dos bens materiais. Se você tem uma coisa, use-a muito, até acabar, diz Thoreau.

Ponto de suficiência

Simplicidade significa eliminar distrações triviais, tanto materiais como imateriais, e focar no essencial - o que quer que isso signifique para cada um. Mas como é difícil decidir o que é essencial! O pior é que, como diz Jorge Mello, um dos maiores divulgadores da simplicidade voluntária no Brasil, essa constatação não é transferível.

Em seu livro Dinheiro e Vida, Vicki Robin apresenta um gráfico que relaciona satisfação e dinheiro despendido. O gráfico faz uma curva ascendente, passando pelas necessidades básicas, algum conforto e pequenos luxos (sem exageros), até chegar ao ponto de suficiência quando os luxos passam dos limites, a curva começa a descer, pois a relação entre dinheiro e satisfação já não vale a pena. O ponto de suficiência seria o ideal para quem quer ter uma vida simples, mas longe da privação ou do sofrimento - pois isso não tem nada a ver com simplicidade.

Prazer de viver

A americana Cecile Andrews, autora do livro The Circle of Simplicity (O círculo de simplicidade, sem tradução no Brasil), afirma que temos que gastar nosso tempo com coisas e pessoas que nos dão energia, e não com as que nos tiram energia. Ela cita uma técnica de outro autor, Alan Lakein, que diz que temos de dividir nossas tarefas de acordo com a prioridade em A, B e C. Até aí, nada de novo. O interessante é que ele propõe que, uma vez que você detecte quais são seus Cs aquilo que suga sua energia, você deve deixar de fazê-los pelo máximo de tempo possível.

Independentemente da conclusão a que você chegue, não faça mudanças bruscas. Sua vida tem muito setores. Escolha apenas um e comece devagar, para que simplificar a vida não se torne um complicador. É a partir de mudanças pequenas na casa, no meio de transporte, na alimentação, na relação com os vizinhos que podem surgir grandes transformações.

Livros para saber mais
Simplicidade Voluntária, Duane Elgin, Cultrix
Dinheiro e Vida, Joe Dominguez e Vicki Robin, Cultrix
Walden Ou A Vida nos Bosques, Henry D. Thoreau, Ground