Galera
A maior parte dos seres humanos, por preguiça e comodidade, segue o exemplo da maioria. Pertencer à minoria é tornar-se vulnerável, expor-se à critica. Tomar consciência da normose e de suas causa constitui a verdadeira terapia contemporânea. Trata-se, também, do encontro com a liberdade. Seguir cegamente as normas é tornar-se escravo. Roberto Crema
Esse é nosso lema!!
ESSE É NOSSO LEMA!!!! "A amizade é uma alma que habita vários corpos. Um coração que habita várias almas" Aristóteles
BOAS VINDAS!
Querer mudar o mundo é um desejo saudável e totalmente necessário. " Para ser feliz, o ser humano precisa somente de duas coisas: cultivar sementes de paz em seu coração e ter bons amigos. " - Buddha
Espaço da Galera!!!!!!!!!!!!!!!!!!
As coisas mais simples são os melhores presentes.
Leveza pra conduzir a vida; Beleza, que vai muito além da estética;
Determinação, porque sem ela nada acontece, nada;
Harmonia, paz e alegria sempre.
Silvana Mara dias Souza
sexta-feira, 7 de junho de 2013
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Tenham todos uma excelente Quinta Feira!
Aproveitando o lindo dia de outono, convido vocês a assistirem este vídeo que adoro do Eduardo Galeano, que se chama "O direito ao delírio."
Espero que vocês apreciem e como eu sigam tentando manter o seu direito ao delírio!
http://www.youtube.com/watch?v=m-pgHlB8QdQ&feature=share
Bjks,
Sil
Espero que vocês apreciem e como eu sigam tentando manter o seu direito ao delírio!
http://www.youtube.com/watch?v=m-pgHlB8QdQ&feature=share
Bjks,
Sil
terça-feira, 4 de junho de 2013
A minha felicidade não é a sua
Temos a pretensão de decretar
quem é feliz ou infeliz de acordo com nossa ótica particular, como se
felicidade fosse algo que pu...desse
ser visualizado. Somos apresentados a alguém com olheiras profundas e
imediatamente passamos a lamentar suas prováveis noites insones causadas
por problemas tortuosos. Ou alguém faz uma queixa infantil da esposa e
rapidamente decretamos que é um fracassado no amor, que seu casamento
deve ser um inferno, pobre sujeito. É nessas horas que junto as pontas
dos cinco dedos da mão e sacudo-a no ar, feito uma italiana indignada:
mas que sabemos nós da vida dos ouitros, catzo?
Nossos momentos felizes se dão, quase todos, na intimidade, quando ninguém está nos vendo. O barulho da chave da porta, de madrugada, trazendo um adolescente de volta pra casa. O cálice de vinho oferecido por uma amiga com quem acabamos de fazer as pazes. Sentar no cinema, sozinha, para assistir o filme tão esperado. Depois de anos com o coração em marcha lenta, rever um ex-amor e descobrir que ainda é capaz de sentir palpitações. Os acordos secretos que temos com filhos, netos, amigos. A emoção provocada por uma frase de um livro. A felicidade de uma cura. E a infelicidade aceita como parte do jogo - ninguém é tão feliz quanto aquele que lida bem com suas precariedades.
O que sei eu sobre aquele que parece radiante e aquela outra que parece à beira do suicídio? Eles podem parecer o que for e eu seguirei sem saber de nada, sem saber de onde eles extraem prazer e dor, como administram seus azedumes e seus êxtases, e muito menos por quanto anda a cotação de felicidade em suas vidas. Costumamos julgar roupas, comportamento, caráter - juízes indefectíveis que somos da vida alheia-, mas é um atrevimento nos outorgarmos o direito de reconhecer, apenas pelas aparências, quem sofre e quem está em paz.
Martha Medeiros
Texto: A minha felicidade não é a sua(O Globo, 18/01/2005)
Nossos momentos felizes se dão, quase todos, na intimidade, quando ninguém está nos vendo. O barulho da chave da porta, de madrugada, trazendo um adolescente de volta pra casa. O cálice de vinho oferecido por uma amiga com quem acabamos de fazer as pazes. Sentar no cinema, sozinha, para assistir o filme tão esperado. Depois de anos com o coração em marcha lenta, rever um ex-amor e descobrir que ainda é capaz de sentir palpitações. Os acordos secretos que temos com filhos, netos, amigos. A emoção provocada por uma frase de um livro. A felicidade de uma cura. E a infelicidade aceita como parte do jogo - ninguém é tão feliz quanto aquele que lida bem com suas precariedades.
O que sei eu sobre aquele que parece radiante e aquela outra que parece à beira do suicídio? Eles podem parecer o que for e eu seguirei sem saber de nada, sem saber de onde eles extraem prazer e dor, como administram seus azedumes e seus êxtases, e muito menos por quanto anda a cotação de felicidade em suas vidas. Costumamos julgar roupas, comportamento, caráter - juízes indefectíveis que somos da vida alheia-, mas é um atrevimento nos outorgarmos o direito de reconhecer, apenas pelas aparências, quem sofre e quem está em paz.
Martha Medeiros
Texto: A minha felicidade não é a sua(O Globo, 18/01/2005)
Amigo!
"Amigo, obra-prima que conta o milagre que acontece toda vez que a vida arruma um modo para aproximar as almas irmãs.
Buquê de risos desarmados, olhares que ouvem, abraços que dizem.
Árvore frondosa e a sombra dela, onde podemos descansar um pouco, ouvir
o canto bom de um passarinho e outro, sorrir para a folha que sabe
dançar mesmo quando cai.
Lugar de azul macio quando faz sol no coração da gente e quando as chuvas mais fortes alagam nossos olhos.
Canção feita de acordes que acordam belezas que às vezes demoram à beça
para cantar de novo. Uma ideia feliz do quanto o amor é pura arte."
Ana Jácomo
segunda-feira, 3 de junho de 2013
“Deus não morreu, ele se tornou dinheiro”
“Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro”. Confira abaixo a excelente entrevista com Giorgio Agamben, um dos principais intelectuais de sua geração
“O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro”, afirma Giorgio Agamben, em entrevista concedida a Peppe Salvà.Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de Heidegger, foi definido pelo Times e pelo Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista.
Segundo ele, “a nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governabilidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas”. Assim, “a tarefa que nos espera consiste em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”, afima Agamben.
A tradução é de Selvino J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC [e tradutor de três das quatro obras de Agamben publicadas pela Boitempo].
“Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. “Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.
Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro. Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro. O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.
A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade?
A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico, como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da relação com o passado. O conhecimento do passado é o único caminho de acesso ao presente. É procurando compreender o presente que os seres humanos – pelo menos nós, europeus – são obrigados a interrogar o passado. Eu disse “nós, europeus”, pois me parece que, se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido, ele, como hoje aparece como evidente, não pode ser nem político, nem religioso e menos ainda econômico, mas talvez consista nisso, no fato de que o homem europeu – à diferença, por exemplo, dos asiáticos e dos americanos, para quem a história e o passado têm um significado completamente diferente – pode ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua história.
O passado não é, pois, apenas um patrimônio de bens e de tradições, de memórias e de saberes, mas também e sobretudo um componente antropológico essencial do homem europeu, que só pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi. Daí nasce a relação especial que os países europeus (a Itália, ou melhor, a Sicília, sob este ponto de vista é exemplar) têm com relação às suas cidades, às suas obras de arte, à sua paisagem: não se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponíveis; trata-se, isso sim, da própria realidade da Europa, da sua indisponível sobrevivência. Neste sentido, ao destruírem, com o cimento, com as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores não nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa própria identidade. A própria expressão “bens culturais” é enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse possível liquidar e por à venda a própria identidade.
Giorgio
Agamben nasceu em Roma em 1942. É um dos principais intelectuais de sua
geração, autor de muitos livros e responsável pela edição italiana das
obras de Walter Benjamin (Foto: Arquivo)
A sua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relação entre poder político e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o ponto de mediação possível entre os dois pólos?
Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separação entre vida nua (a vida biológica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluída da política e, ao mesmo tempo, foi incluída e capturada através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento negativo do poder. Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política.
O que aconteceu nos estados totalitários do século XX reside no fato de que é o poder (também na forma da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separável da sua forma, que jamais seja vida nua.
O mal-estar, para usar um eufemismo, com que o ser humano comum se põe frente ao mundo da política tem a ver especificamente com a condição italiana ou é de algum modo inevitável?
Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência. As formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.
O estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível atenuar esta sensação?
Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democráticos. Poucos sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmeras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmeras não é mais um lugar público: é uma prisão.
A grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder político poderá trazer-nos esperanças de que, dizendo-o de forma banal, o futuro será melhor do que o presente?
Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: “a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”.
Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a aula que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indicação de como sair do xeque-mate no qual a arte contemporânea está envolvida.
Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problemáticos. Em uma sociedade que já não sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercantilização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea, as duas coisas coincidem.
Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. O que faz Duchamp quando inventa o ready-made? Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitário, e, introduzindo-o num museu, o força a apresentar-se como obra de arte. Naturalmente – a não ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança aqui a presença: nem a obra, pois se trata de um objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a operação artística, porque não há de forma alguma uma poiesis, produção – e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não age como artista, mas, se muito, como filósofo ou crítico, ou, conforme gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo.
Em todo caso, certamente ele não queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercantilização. Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio, infelizmente ainda ativo, de hábeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp, enchendo com não-obras e performances em museus, que são meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circulação de mercadorias, que, assim como o dinheiro, já alcançaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradição da arte contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço.
Sobre o autor
Giorgio Agamben nasceu em Roma em 1942. É um dos principais intelectuais de sua geração, autor de muitos livros e responsável pela edição italiana das obras de Walter Benjamin. Deu cursos em várias universidades europeias e norte-americanas, recusando-se a prosseguir lecionando na New York University em protesto à política de segurança dos Estados Unidos. Foi diretor de programa no Collège International de Philosophie de Paris. Mais recentemente ministrou aulas de Iconologia no Istituto Universitario di Architettura di Venezia (Iuav), afastando-se da carreira docente no final de 2009. Sua obra, influenciada por Michel Foucault e Hannah Arendt, centra-se nas relações entre filosofia, literatura, poesia e, fundamentalmente, política. Entre seus principais livros destacam-se Homo sacer (2005), Estado de exceção (2005), Profanações (2007), O que resta de Auschwitz (2008) e O reino e a glória (2011), os quatro últimos publicados no Brasil pela Boitempo Editorial.Instituto Humanitas Unisinos
“O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro”, afirma Giorgio Agamben, em entrevista concedida a Peppe Salvà.
Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de Heidegger, foi definido pelo Times e pelo Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista.
Segundo ele, “a nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governabilidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas”. Assim, “a tarefa que nos espera consiste em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”, afima Agamben.
A tradução é de Selvino J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC [e tradutor de três das quatro obras de Agamben publicadas pela Boitempo].
“Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. “Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.
Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro. Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro. O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.
A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade?
A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico, como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da relação com o passado. O conhecimento do passado é o único caminho de acesso ao presente. É procurando compreender o presente que os seres humanos – pelo menos nós, europeus – são obrigados a interrogar o passado. Eu disse “nós, europeus”, pois me parece que, se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido, ele, como hoje aparece como evidente, não pode ser nem político, nem religioso e menos ainda econômico, mas talvez consista nisso, no fato de que o homem europeu – à diferença, por exemplo, dos asiáticos e dos americanos, para quem a história e o passado têm um significado completamente diferente – pode ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua história.
O passado não é, pois, apenas um patrimônio de bens e de tradições, de memórias e de saberes, mas também e sobretudo um componente antropológico essencial do homem europeu, que só pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi. Daí nasce a relação especial que os países europeus (a Itália, ou melhor, a Sicília, sob este ponto de vista é exemplar) têm com relação às suas cidades, às suas obras de arte, à sua paisagem: não se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponíveis; trata-se, isso sim, da própria realidade da Europa, da sua indisponível sobrevivência. Neste sentido, ao destruírem, com o cimento, com as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores não nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa própria identidade. A própria expressão “bens culturais” é enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse possível liquidar e por à venda a própria identidade.
Giorgio
Agamben nasceu em Roma em 1942. É um dos principais intelectuais de sua
geração, autor de muitos livros e responsável pela edição italiana das
obras de Walter Benjamin (Foto: Arquivo)
A sua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relação entre poder político e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o ponto de mediação possível entre os dois pólos?
Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separação entre vida nua (a vida biológica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluída da política e, ao mesmo tempo, foi incluída e capturada através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento negativo do poder. Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política.
O que aconteceu nos estados totalitários do século XX reside no fato de que é o poder (também na forma da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separável da sua forma, que jamais seja vida nua.
O mal-estar, para usar um eufemismo, com que o ser humano comum se põe frente ao mundo da política tem a ver especificamente com a condição italiana ou é de algum modo inevitável?
Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência. As formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.
O estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível atenuar esta sensação?
Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democráticos. Poucos sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmeras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmeras não é mais um lugar público: é uma prisão.
A grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder político poderá trazer-nos esperanças de que, dizendo-o de forma banal, o futuro será melhor do que o presente?
Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: “a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”.
Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a aula que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indicação de como sair do xeque-mate no qual a arte contemporânea está envolvida.
Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problemáticos. Em uma sociedade que já não sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercantilização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea, as duas coisas coincidem.
Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. O que faz Duchamp quando inventa o ready-made? Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitário, e, introduzindo-o num museu, o força a apresentar-se como obra de arte. Naturalmente – a não ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança aqui a presença: nem a obra, pois se trata de um objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a operação artística, porque não há de forma alguma uma poiesis, produção – e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não age como artista, mas, se muito, como filósofo ou crítico, ou, conforme gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo.
Em todo caso, certamente ele não queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercantilização. Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio, infelizmente ainda ativo, de hábeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp, enchendo com não-obras e performances em museus, que são meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circulação de mercadorias, que, assim como o dinheiro, já alcançaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradição da arte contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço.
Sobre o autor
Giorgio Agamben nasceu em Roma em 1942. É um dos principais intelectuais de sua geração, autor de muitos livros e responsável pela edição italiana das obras de Walter Benjamin. Deu cursos em várias universidades europeias e norte-americanas, recusando-se a prosseguir lecionando na New York University em protesto à política de segurança dos Estados Unidos. Foi diretor de programa no Collège International de Philosophie de Paris. Mais recentemente ministrou aulas de Iconologia no Istituto Universitario di Architettura di Venezia (Iuav), afastando-se da carreira docente no final de 2009. Sua obra, influenciada por Michel Foucault e Hannah Arendt, centra-se nas relações entre filosofia, literatura, poesia e, fundamentalmente, política. Entre seus principais livros destacam-se Homo sacer (2005), Estado de exceção (2005), Profanações (2007), O que resta de Auschwitz (2008) e O reino e a glória (2011), os quatro últimos publicados no Brasil pela Boitempo Editorial.Instituto Humanitas Unisinos
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Bom feriado galera!
..."Eu
gosto de gente que é laço, que pisa o meu passo, que é abraço quando me
falta um pedaço, mesmo nos mais duros dias de cansaço.
Gosto de gente que não escolhe, e sim acolhe.
E envolve, absorve, comove.
De gente que é parceria na hora da alegria, estende a mão nos momentos
de solidão e tem sempre uma palavra de clareza e riqueza nos dias de
tristeza.
Eu gosto de gente que não se guarda: se entrega, navega.
... De gente que se chega, se aconchega.
De gente que aceita, de gente que enfeita.
Eu gosto de gente que comigo se ajeita"...
V. Fontani
terça-feira, 28 de maio de 2013
Gente!
"Eu gosto de gente onde eu posso caber.
De gente de peito aberto, sorriso esperto, coração liberto.
Gente pra mim não tem muros: é casa espaçosa, com jardim de grama
verdinha, borboleta batendo asa e cachorro fazendo festa no quintal.
Gente pra mim é luz acesa, é porta sem tranca, é janela com vista pro mar.
Bom mesmo é encontrar gente em quem a gente possa fazer um lar.
... E morar."
Verônica Fantoni
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Meu filho, você não merece nada!
A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada. Por ELIANE BRUM
Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.
Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.
Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.
Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.
Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.
É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?
Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.
Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.
Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.
A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.
Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.
Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.
Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.
Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.
O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.
Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.
Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.
Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.
Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
22 coisas que pessoas felizes fazem diferente!
Existem dois tipos de pessoas no mundo: aquelas que escolhem ser felizes e aquelas que optam por ser infelizes. Ao contrário da crença popular, a felicidade não vem da fama, da fortuna ou de bens materiais. Ela vem de dentro. A pessoa mais rica do mundo pode estar miseravelmente infeliz, enquanto um sem-teto pode estar sorrindo e contente com a sua vida. As pessoas felizes o são porque se fazem felizes. Elas têm uma visão positiva da vida e permanecem em paz com elas mesmas.
A questão é: como elas fazem isso?
É muito simples. As pessoas felizes têm hábitos que melhoram suas vidas e se comportam de maneira diferente. Pergunte a uma pessoa feliz e ela vai dizer:
1. Não guarde rancor.
As pessoas felizes entendem que é melhor perdoar e esquecer que deixar que sentimentos negativos asdominem. Guardar rancor é prejudicial e pode causar depressão, ansiedade e estresse. Por que deixar que uma ofensa de alguém exerça algum poder sobre você? Se você esquecer os seus rancores, vai ganhar uma consciência clara e energia suficiente para apreciar as coisas boas da vida.
2. Trate a todos com bondade.
Você sabia que foi cientificamente provado que ser gentil faz você feliz? Ser altruísta faz seu cérebro produzir serotonina, um hormônio que diminui a tensão e eleva o seu espírito. Tratar as pessoas com amor, dignidade e respeito permite que você construa relacionamentos mais fortes.
3. Veja os problemas como desafios.
A palavra “problema” não faz parte do vocabulário de uma pessoa feliz. Um problema, na maioria das vezes, é visto como uma desvantagem, uma luta ou uma situação difícil. Mas quando encarado como um desafio, pode se transformar em algo positivo, como uma oportunidade. Sempre que você enfrentar um obstáculo, pense-o um desafio.
4. Expresse gratidão pelo que já tem.
Há um ditado popular que diz: “As pessoas mais felizes não têm o melhor de tudo, elas fazem o melhor de tudo com o que elas têm.” Você terá um sentido mais profundo de contentamento se contar suas bênçãos em vez de ansiar pelo que você não tem .
5. Sonhe grande.
As pessoas que têm o hábito de sonhar grande são mais propensas a realizar seus objetivos que aquelas que não o fazem. Se você se atreve a sonhar grande, sua mente vai assumir uma atitude focada e positiva.
6. Não se preocupe com as pequenas coisas.
As pessoas felizes se perguntam: “Será que este problema terá a mesma importância daqui a um ano?” Elas entendem que a vida é muito curta para se preocupar com situações triviais. Deixar os problemas rolarem à sua volta vai, definitivamente, deixar você à vontade para desfrutar de coisas mais importantes.
7. Fale bem dos outros.
Ser bom é melhor que ser mau. Fofocar pode até ser divertido, mas, geralmente, deixa você se sentindo culpado e ressentido. Dizer coisas agradáveis sobre as pessoas leva você a pensar positivo e a não se preocupar em julgá-las.
8. Não procure culpados.
Pessoas felizes não culpam os outros por seus próprios fracassos. Em vez disso, elas assumem seus erros e, ao fazê-lo, mudar para melhor.
9. Viva o presente.
Pessoas felizes não vivem do passado ou se preocupam com o futuro. Elas saboreiam o presente. Se envolvem em tudo o que está fazendo no momento. Param e cheiram as rosas.
10. Acorde no mesmo horário todos os dias.
Você já reparou que muitas pessoas bem-sucedidas tendem a ser madrugadores? Acordar no mesmo horário estabiliza o seu metabolismo, aumenta a produtividade e nos coloca em um estado calmo e centrado.
11. Não se compare aos outros.
Todos têm seu próprio ritmo. Então, por que se comparar aos outros? Pensar ser melhor que outra pessoa leva a um sentimento de superioridade não muito saudável e, se pensar o contrário, acabará se sentindo inferior. Então, concentre-se em seu próprio progresso.
12. Escolha seus amigos sabiamente.
A miséria adora companhia. Por isso, é importante cercar-se de pessoas otimistas que vão incentivá-lo a atingir seus objetivos. Quanto mais energia positiva em torno de você, melhor vai se sentir.
13. Não busque a aprovação dos outros.
As pessoas felizes não importam com o que os outros pensam delas. Seguem seus próprios corações, sem deixar os pessimistas desencorajá-los, e entendem que é impossível agradar a todos. Escute o que as pessoas têm a dizer, mas nunca busque a aprovação de ninguém.
14. Aproveite seu tempo para ouvir.
Fale menos, ouça mais. Escutar mantém a mente aberta. Quanto mais você ouve, mais conteúdo você absorve.
15. Cultive relacionamentos sociais.
Uma pessoa só é uma pessoa infeliz. Pessoas felizes entendem o quão importante é ter relações fortes e saudáveis. Sempre tenha tempo para encontrar e falar com sua família e amigos.
16. Medite.
Ficar no silêncio ajuda você a encontrar sua paz interior. Você não tem que ser um mestre zen para alcançar a meditação. As pessoas felizes sabem como silenciar suas mentes, em qualquer hora e lugar, para se acalmar.
17. Coma bem.
Tudo o que você come afeta diretamente a capacidade de seu corpo produzir hormônios, o que vai definir seu humor, energia e enfoque mental. Certifique-se de comer alimentos que vão manter seu corpo saudável e em boa forma e sua mente mais tranquila.
18. Faça exercícios.
Estudos têm mostrado que o exercício aumenta os níveis de felicidade e autoestima e produz a sensação de autorrealização.
19. Viva com o que é realmente importante.
As pessoas felizes mantêm poucas coisas ao seu redor porque elas sabem que excessos as deixam sobrecarregadas e estressadas. Estudos concluíram que os europeus são muito mais felizes que os americanos, porque eles vivem em casas menores, dirigem carros mais simples e possuem menos itens.
20. Diga a verdade.
Mentir corrói a sua autoestima e o torna antipático. A verdade sempre liberta. Ser honesto melhora sua saúde mental e faz com que os outros tenham mais confiança em você. Seja sempre verdadeiro e nunca se desculpe por isso.
21. Estabeleça o controle pessoal.
As pessoas felizes têm a capacidade de escolher seus próprios destinos. Elas não deixam os outros dizerem como devem viver suas vidas. Estar no controle completo de sua própria vida traz sentimentos positivos e aumenta a autoestima.
22. Aceite o que não pode ser alterado.
Depois de aceitar o fato de que a vida não é justa, você vai estar mais em paz com você mesmo. Portanto, concentre-se apenas no que você pode controlar e mudar para melhor.
Essa é uma tradução do texto da Chiara Fucarino.
Você pode acessar o texto original aqui: http://successify.net/2012/10/31/22-things-happy-people-do-differently/
domingo, 19 de maio de 2013
Menos iPad, mais Aipim!
Encaminhe resíduos recicláveis para cooperativas
Menos iPad, mais Aipim!Giuliana Capello - 26/02/2013 às 17:34
Ainda vou fazer um adesivo com essa frase para colocar no carro e sair por aí, levantando bandeira, divertindo, fazendo pensar, sei lá… É impressionante como as pessoas estão cada vez mais distantes das coisas que lhe são básicas (uma boa alimentação, por exemplo), ao mesmo tempo em que dedicam mais e mais tempo, energia e dinheiro para itens, digamos, não tão fundamentais assim…Quando digo iPad, estou tomando este ícone contemporâneo como símbolo de todos os demais que nos seduzem diariamente com distrações, inovações, necessidades que não existiam até descobrirmos um novo aparelho, top de linha, que é praticamente igual ao anterior, exceto pelo fato de ser a quinta e não a quarta geração do mesmo equipamento.E tem ainda, é claro, os acessórios que se tornam indispensáveis, poucos dias após darem o ar da graça neste mundo. Um exemplo? As gloriosas capinhas de iPhone… Não basta ter o aparelho. É preciso ter uma capinha descolada, que diga ao mundo quem você é, do que gosta, de que grupo social faz parte, sei lá, imagino que seja por aí…Daqui da “roça” (este é o jeito que alguns amigos escolheram para se referir ao meu endereço atual), é tão mais difícil entender esses fenômenos urbanos, que fico me sentindo quase um E.T. E explico: quando moramos na zona rural ou quando temos mais contato com a natureza, sinto que nos tornamos mais plenos de sentido, mais preenchidos por dentro pelas estrelas, pela mata, pelos passarinhos, pelos mil presentes que recebemos com gratidão todos os dias. Assim, sinto que também ficamos menos sujeitos ao consumismo, já que mais ligados à terra, ao que verdadeiramente nos nutre.Existem pessoas que, de fato, precisam de alguns equipamentos de ponta para seu trabalho, precisam estar o tempo todo conectados (leia também: disponíveis para terceiros). Não há problema nisso, desde que a pessoa se sinta bem em seu dia a dia e tenha consciência do que está fazendo. O que é estranho é deixar que esses brinquedinhos, encantadores para muita gente, virem itens compulsórios em nossas vidas, ainda que não nos sejam necessários ou úteis.Eu, por exemplo, já tive celulares moderninhos, com acesso a internet, um super plano e coisa e tal. Mas isso foi no tempo em que morava em São Paulo e tinha uma vida mais agitada. Recentemente, no entanto, reavaliei minhas necessidades, minha rotina, meu uso efetivo de telefone e internet, e decidi comprar o modelo mais simples que havia na loja (depois que o anterior, de última geração, pifou com menos de um ano de uso…). Não vejo mais e-mails no celular, até porque quando estou na ecovila – e isso representa 80% do meu tempo – o sinal não é lá essas coisas e posso muito bem checar minha caixa postal usando o computador de casa.Ao contrário do que muitos imaginam, não me sinto obsoleta ou fora de moda. Estou apenas adequando o uso desses equipamentos à minha rotina, ao meu estilo de vida. Não é uma questão de condenar totalmente estes produtos. Mas é preciso, sim, avaliar a função deles em nossas vidas e, mais que isso, o que eles representam: um luxo, uma necessidade, um capricho, um desejo de status social?Se queremos uma vida mais sustentável, se pensamos em um planeta mais saudável e equilibrado, faz parte da história questionar a transformação de bens naturais (minérios, derivados do petróleo etc.) em artigos supérfluos – melhor seria deixá-los restritos a quem realmente tem o que fazer com esses equipamentos.Mais uma vez, repito uma fala recorrente aqui neste blog: consumir é apoiar, é concordar, é dizer sim ao fabricante, ao mercado, ao modo de produção, ao tipo de trabalho envolvido, enfim, é patrocinar toda a cadeia de produção de um determinado bem. Por isso, estejamos conscientes de nossas escolhas.É por essas e outras que, por enquanto, aqui na ecovila, ainda vejo mais sentido em investir em aipim…
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Oração Celta
Que jamais, em tempo algum, o teu coração acalente ódio.
Que o canto da maturidade jamais asfixie a tua criança interior.
Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.
Que as perdas do teu caminho sejam sempre encaradas como lições de vida.
Que a música seja tua companheira de momentos secretos contigo mesmo.
Que os teus momentos de amor contenham a magia de tua alma eterna em cada beijo.
Que os teus olhos sejam dois sóis olhando a luz da vida em cada amanhecer.
Que cada dia seja um novo recomeço, onde tua alma dance na luz.
Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas de tua passagem em cada coração.
Que em cada amigo o teu coração faça festa, que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins.
Que em teus momentos de solidão e cansaço, esteja sempre presente em teu coração a lembrança de que tudo passa e se transforma, quando a alma é grande e generosa.
Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente, para que tu percebas a ternura invisível, tocando o centro do teu ser eterno.
Que um suave acalanto te acompanhe, na terra ou no espaço, e por onde quer que o imanente invisível leve o teu viver.
Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável!
Que os teus pensamentos e os teus amores, o teu viver e a tua passagem pela vida, sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome. Aquele amor que não se explica, só se sente.
Que esse amor seja o teu acalento secreto, viajando eternamente no centro do teu ser.
Que a estrada se abra à sua frente.
Que o vento sopre levemente às suas costas.
Que o sol brilhe morno e suave em sua face.
Que respondas ao chamado do teu Dom e encontre a coragem para seguir-lhe o caminho.
Que a chama da raiva te liberte da falsidade.
Que o ardor do coração mantenha a tua presença flamejante e que a ansiedade jamais te ronde.
Que a tua dignidade exterior reflita uma dignidade interior da alma.
Que tenhas vagar para celebrar os milagres silenciosos que não buscam atenção.
Que sejas consolado na simetria secreta da tua alma.
Que sintas cada dia como uma dádiva sagrada tecida em torno do cerne do assombro.
Que a chuva caía de mansinho em seus campos…
E, até que nos encontremos de novo…
Que os Deuses lhe guardem na palma de Suas mãos.
Que despertes para o mistério de estar aqui e compreendas a silenciosa imensidão da tua presença.
Que tenhas alegria e paz no templo dos teus sentidos.
Que recebas grande encorajamento quando novas fronteiras acenarem.
Que este amor transforme os teus dramas em luz, a tua tristeza em celebração e os teus passos cansados em alegres passos de dança renovadora.
Que jamais, em tempo algum, tu esqueças da Presença que está em ti e em todos os seres.
Que o teu viver seja pleno de Paz e Luz!
Que o canto da maturidade jamais asfixie a tua criança interior.
Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.
Que as perdas do teu caminho sejam sempre encaradas como lições de vida.
Que a música seja tua companheira de momentos secretos contigo mesmo.
Que os teus momentos de amor contenham a magia de tua alma eterna em cada beijo.
Que os teus olhos sejam dois sóis olhando a luz da vida em cada amanhecer.
Que cada dia seja um novo recomeço, onde tua alma dance na luz.
Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas de tua passagem em cada coração.
Que em cada amigo o teu coração faça festa, que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins.
Que em teus momentos de solidão e cansaço, esteja sempre presente em teu coração a lembrança de que tudo passa e se transforma, quando a alma é grande e generosa.
Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente, para que tu percebas a ternura invisível, tocando o centro do teu ser eterno.
Que um suave acalanto te acompanhe, na terra ou no espaço, e por onde quer que o imanente invisível leve o teu viver.
Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável!
Que os teus pensamentos e os teus amores, o teu viver e a tua passagem pela vida, sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome. Aquele amor que não se explica, só se sente.
Que esse amor seja o teu acalento secreto, viajando eternamente no centro do teu ser.
Que a estrada se abra à sua frente.
Que o vento sopre levemente às suas costas.
Que o sol brilhe morno e suave em sua face.
Que respondas ao chamado do teu Dom e encontre a coragem para seguir-lhe o caminho.
Que a chama da raiva te liberte da falsidade.
Que o ardor do coração mantenha a tua presença flamejante e que a ansiedade jamais te ronde.
Que a tua dignidade exterior reflita uma dignidade interior da alma.
Que tenhas vagar para celebrar os milagres silenciosos que não buscam atenção.
Que sejas consolado na simetria secreta da tua alma.
Que sintas cada dia como uma dádiva sagrada tecida em torno do cerne do assombro.
Que a chuva caía de mansinho em seus campos…
E, até que nos encontremos de novo…
Que os Deuses lhe guardem na palma de Suas mãos.
Que despertes para o mistério de estar aqui e compreendas a silenciosa imensidão da tua presença.
Que tenhas alegria e paz no templo dos teus sentidos.
Que recebas grande encorajamento quando novas fronteiras acenarem.
Que este amor transforme os teus dramas em luz, a tua tristeza em celebração e os teus passos cansados em alegres passos de dança renovadora.
Que jamais, em tempo algum, tu esqueças da Presença que está em ti e em todos os seres.
Que o teu viver seja pleno de Paz e Luz!
domingo, 28 de abril de 2013
Faça um dia das mães diferente!
O Dia das Mães é uma data muito especial, que vai além de presentes caros e do consumismo incentivado pelo comércio. Se você deseja presentear a sua mãe de maneira sustentável, anote algumas dica:
Ao invés de optar pelos shoppings, comércios e presentes caros, faça você mesmo algo inusitado e personalizado. Você pode reutilizar materiais para fazer um porta-retratos ou um vaso.
Caso queira dar um presente pronto, prefira comprar localmente. Uma ideia boa é comprar objetos ou doces feitos manualmente, como obras de artesões ou chocolates artesanais, por exemplo. Não esqueça de escrever um cartão.
Não utilize muita embalagem para embrulhar o presente. Uma opção é reaproveitar embalagens de presentes anteriores que você ganhou, desde que elas estejam em bom estado.
Tente sair da rotina. Pra começar bem o dia, sirva um café da manhã especial para sua mãe, melhor ainda se for na cama, lembre-se de enfeitar a mesa ou a bandeja com alimentos frescos, como frutas e outras opções naturais, e flores.
Domingo é um ótimo dia para fazer passeios tranquilos, como visitas a centros culturais, museus, caminhadas e parques. Passeios simples como esses oferecem um contato com a natureza e são atividades gratuitas. Se a família optar pelo parque, também é possível fazer um piquenique, com alimentos saudáveis, andar de bicicleta e conversar sob a sombra de uma árvore.
Prepare um almoço ou jantar especial, um estilo de vida agitado pode significar momentos em família pouco frequentes. Portanto uma data como essa, serve para atentar à importância da vivência e intimidade familiar.
Uma maneira de deixar a sua mãe feliz, sem custo algum, é dividir as tarefas domésticas entre você e seus familiares e deixar sua mãe ter um “dia de princesa”. Você pode, por exemplo, fazer algo que ela esteja pedindo há muito tempo, como fazer compras no mercado, arrumar o seu quarto, limpar as calhas, entre outras atividades.
Você também pode presentear sua mãe com uma árvore frutífera ou plantar uma flor em um vaso, podendo conservar o presente por muitos outros os dias. Se ela tiver interesse pela terra, outra sugestão é presenteá-la com uma horta caseira, para que ela mesma possa cultivar ervas, legumes, frutas e verduras.
Lembre-se de expressar o seu amor com muitos beijos, abraços e carinhos. É de graça e faz toda a diferença.
"Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo" (Gandhi)
Para praticar!
“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver” (Amyr Klink)
sexta-feira, 12 de abril de 2013
À DESCOBERTA DO AMOR
"Ensaia um sorriso
e oferece-o a quem não teve nenhum.
Agarra um raio de sol
e desprende-o onde houver noite.
Descobre uma nascente
e nela limpa quem vive na lama.
Toma uma lágrima
e pousa-a em quem nunca chorou.
Ganha coragem
e dá-a a quem não sabe lutar.
Inventa a vida
e conta-a a quem nada compreende.
Enche-te de esperança
e vive á sua luz.
Enriquece-te de bondade
e oferece-a a quem não sabe dar.
Vive com amor
e fá-lo conhecer ao Mundo."
Mahatma Gandhi
terça-feira, 26 de março de 2013
5 tipos de livros que aumentam a inteligência
Quer ser uma pessoa mais inteligente? Que tal fazer isso mudando os próximos títulos da sua lista de leitura? Confira 5 categorias que podem torná-lo alguém mais inteligente
Publicado no Universia Brasil
1. Ciências
A categoria não inclui apenas os livros científicos, mas todos aqueles que melhoram o nosso conhecimento sobre o mundo “natural”, como estudos sobre a sociedade, etc. O valor desses livros não vem das teorias que eles provam (ou questionam), mas do desenvolvimento da curiosidade que eles despertam, bem como os métodos de aprendizado. Os livros científicos podem ensinar a conduzir uma investigação, confiar na sua intuição e validar temas a partir de evidências.
2. Filosofia
Assim como a ciência, a filosofia cresce a partir do pensamento crítico. Ao contrário das ciências, que nos ajudam a entender o mundo exterior, a filosofia é voltada para dentro, facilitando o processo de entender a si mesmo. A filosofia vai melhorar o seu entendimento das necessidades e desejos humanos, além de aumentar o seu conhecimento sobre as principais prerrogativas do comportamento humano.
3. Ficções científicas
O fato de um livro não ser baseado em uma história real não diminui o seu valor de ensinamentos. Os melhores trabalhos de ficção contêm mais verdade que muitos outros gêneros literários, pois permitem ao seu leitor uma experiência com novas realidades. As ficções criam experiências que elevam o nível de consciência e lidam com questões como a filosofia, a psicologia e até mesmo a história. Lendo ficções você pode desenvolver a sua linguagem e se tornar um melhor escritor, pensador e orador.
4. História
A história pode parecer bastante entediante a princípio, como todos aqueles nomes e datas distantes. Contudo, a história pode ser bastante estimulante se discutida da maneira correta. Ao invés de longos textos explicativos, por exemplo, é possível encarar os fatos como grandes anedotas, cheia de personagens complexos e ideias inovadoras para a época. Aprendendo o passado você se torna mais capaz de interpretar os fatos do seu tempo e consegue reconhecer, inclusive, as heranças deixadas por outras épocas.
5. Poesia
A leitura de grandes poesias produz um sentimento de admiração e reverência com relação ao poder das palavras. Ela aguça suas competências linguísticas e ajuda a desenvolver a sua eloquência. Além disso, você desenvolve o seu vocabulário e compreende melhor o significado das palavras.
sábado, 23 de março de 2013
O papel da mulher contemporânea
O psicanalista Contardo Calligaris entende da alma feminina como poucos. A seguir, ele fala tudo o que pensa sobre o papel da mulher nos dias de hoje
Eduardo Nunomura (redacao.vocesa@abril.com.br) 10/01/2012
É sempre temerário reunir dois homens para
falar de mulheres. Mas o que se lerá nas linhas a seguir, esperamos, é
uma sincera e aguçada leitura do papel da mulher nos dias de hoje a
partir de uma conversa com o psicanalista Contardo Calligaris.
Italiano de Milão radicado no Brasil e cidadão do mundo, Contardo é autor de livros na área da psicologia, já escreveu uma peça teatral e recém-publicou sua segunda obra de ficção literária, A Mulher Vestida de Vermelho e Branco, pela Companhia das Letras.
Nesta entrevista, o psicanalista lembra que, desde os primeiros dias de vida, meninos e meninas são criados de forma diferenciada pela mãe e isso está na origem da distinção e dos papéis que cada um vai assumir na vida adulta. No caso da mulher, papéis que se dividem em três exaustivas missões: ser ao mesmo tempo dona de casa, profissional e amante. "O que permite viver bem entre três jornadas só pode ser uma real dimensão de paixão. É não estar em nenhuma delas por obrigação", diz Contardo. Leia a seguir os principais trechos da entrevista exclusiva para o Especial Mulheres:
Especial Mulheres - Comecemos pelas aspirações de homens e mulheres...
Contardo Calligaris - Todo mundo diz que a mulher tem uma jornada dupla, mas ela é tripla. Ser mãe ou dona de casa é diferente de ser amante, que por sua vez é diferente de ter vida profissional. Ela tem o desejo de conquistar um reconhecimento público e, para uma grande maioria, de se realizar como mãe. E sabe que ser amante não é uma sinecura, uma coisa automática, tipo às 23 horas sai uma transa. O homem não tem incumbência do lar, com raras exceções, e não acha que ser amante é uma vocação ou trabalho. Claro que há contradições, porque ele tem desejos aos quais já renunciou. O homem casado, diante da mulher e dos filhos, tem pretensão de ser aquele que se sacrificou pelo bem de todos.
A mulher tem mais chances de se realizar no trabalho?
Não necessariamente, até porque ainda tem uma série de obstáculos para ela. Estamos longe de um mundo no qual homens e mulheres são iguais no trabalho. Mas a mulher tem menos a sensação de ver renegado um desejo para fazer uma escolha profissional. Elas são mais próximas da vida concreta. Os homens vivem a metade do tempo em fantasias, às vezes inconfessáveis, tipo "o que vou fazer quando ganhar na loteria". Isso pode ocupar 30% do tempo deles, e não estou exagerando. A mulher pode até jogar na loteria, mas não vai perder tempo pensando em como gastar aquele dinheiro.
De onde vem essa diferença de mundos?
A causa é feminina. O homem é investido pela mãe da tarefa de ser a realização de todas as aspirações maternas. Essa é uma razão por que ele não para de sonhar. A mulher pode ter outros desejos, mas o fato de sonhar uma vida totalmente diferente não é uma coisa pela qual ela vá perder muito tempo. Ainda hoje as mães tratam meninos e meninas, desde bebê, de forma diferente. Não é porque ela não amaria sua filha, claro que não. Mas com a filha há um registro de rivalidade, que não existe com o menino. Uma das coisas mais complicadas na vida de qualquer mulher é a sua relação com a mãe. Ela não espera da filha que esta seja a realização de todas as suas frustrações.
Esse registro de rivalidade se reflete no trabalho?
Isso reflete entre as mulheres. Os homens também têm forte rivalidade no trabalho, mas o ciúme entre elas é fortíssimo. Só que é possível fazer disso um tema de reflexão. Acredito nesse suporte cognitivo, pois fará você pegar leve, pensar que não é bem assim. Tudo isso ajuda no convívio. A grande maioria das mulheres dirá que prefere um chefe homem a uma chefe mulher. Em geral, sabe por experiência que vai ser tratada melhor, com mais equanimidade.
Dá para equacionar a tríplice jornada?
O segredo para se dar bem é não estar em nenhuma das jornadas por obrigação. Ter vontade de ser amante, ter desejos sexuais fortes. Ter satisfação nas coisas do lar, na função de mãe. E no trabalho também. Não que a conciliação fique mais fácil só agindo assim. É muito difícil quando uma ou ainda duas das três jornadas são vividas num registro de chantagem. "Ó, meu Deus, esqueci de fazer aquilo." Mas há uma cobrança constante por ser feliz... Acho que não precisa ser feliz nunca. A felicidade é um conceito de marketing, que não corresponde a nada na vida real.
O senhor já definiu que a mulher do século 21 é aquela que é sem a culpa de ser mulher.
Durante muito tempo a mulher foi culpada de ser mulher. É como se carregasse uma imperfeição. Freud foi muito criticado nos anos 1960, mas, quando você o lê afirmando como se formam psiquicamente os dois sexos, tem-se a impressão de que o sexo feminino foi descrito negativamente, como aquele sexo ao qual falta um pênis. Muitas psicanalistas fizeram essa crítica, mas no fundo, e não que Freud adote essa visão, expõe um ponto de vista majoritário durante muito tempo. O movimento feminino dos anos 1960 teve uma função muito grande para mudar essa percepção. Porém isso não acabou.
Por que a mulher se cobra por ser mais competente?
Ela ainda sofre com a herança maldita, por ser "imperfeita". O tempo inteiro tem que mostrar que pode e é capaz. Já o homem, por ser homem, seria aquela coisa maravilhosa da mãe. No meu último livro, a personagem mulher de vermelho e branco, é brasileira que casou com um marroquino de ascendência libanesa, muçulmano. Durante a vida nunca tiveram problemas, porque não eram verdadeiramente religiosos. Mas com os filhos surgem os conflitos. Na tradição muçulmana, você amamenta todos os filhos, mas é importante que os varões sejam amamentados mais. Isso traduz a relação materna com o menino e a menina. A gente esquece de quanto isso é profundamente enraizado. Os homens continuam profundamente machistas, achando que a mulher não pode fazer tudo. E elas têm uma certa condescendência com esse comportamento, porque deixam os homens acreditarem nisso.
É conveniente por parte delas?
É cortesia, gentileza. Ela quer que os homens se sintam felizes. Os homens têm tanto medo de um rato quanto as mulheres.
Quais as expectativas em relação à mulher hoje?
Há uma expectativa de uma convivência de igualdade entre gêneros. Mas quem tem uma visão mais apurada poderia esperar que as mulheres aproveitassem melhor a diferença entre homens e mulheres. Ela é objetiva e concreta na visão do mundo. Elas são mais ricas como pessoas, corajosas, malucas. O fato de viver três jornadas faz delas pessoas mais interessantes. Em cada jornada, têm a sensação de que não está dando tudo de si nas outras duas. Ela inventa artes de viver que são mais fascinantes.
No mundo em que a novidade se impõe, a mulher está mais pronta para o novo?
Acho que sim. O homem está inserido em boa parte de sua vida numa fantasia, que, em geral, é repetitiva. A mulher é mais plástica e tem mais facilidade de enfrentar situações diferentes, se adaptar a elas e mudar rapidamente. Isso pode ser uma vantagem muito grande.
O que não se espera mais da mulher?
Pois é, isso qualquer mulher gostaria de saber (risos). A minha impressão é de que as coisas só se acrescentam. Os papéis delas crescem, se multiplicam sem que saiam os anteriores. Mas não se pode olhar essa tripla jornada como se fosse uma cruel imposição da sociedade e, em particular, dos homens. No fundo, a maioria das mulheres não quer renunciar a nenhuma dessas funções. Entre 1994 a 2004, trabalhei em Nova York e meus pacientes eram homens e mulheres do mercado financeiro. A exigência de trabalho era monstruosa e eu ouvia que aquele era o momento da vida delas em que fariam uma pequena fortuna, e aí se permitiriam formar uma família. Mas isso foi dramático porque chegaram num flash aos 40 anos para descobrir que já era tarde.
A sociedade pode vir, um dia, a perder o viés machista?
Gradualmente é o que está acontecendo. Ao mesmo tempo persiste uma desigualdade, que não tem a ver com a questão de salários, mas é uma desigualdade dos sexos. Seria triste imaginar uma sociedade isonômica. Desde a adolescência, eu nunca imaginava que o mundo mudaria tanto. Se alguém, nos anos 1960, me dissesse que as mulheres estariam no Exército, no comando de empresas ou governando países, eu diria que estaria maluco.
Italiano de Milão radicado no Brasil e cidadão do mundo, Contardo é autor de livros na área da psicologia, já escreveu uma peça teatral e recém-publicou sua segunda obra de ficção literária, A Mulher Vestida de Vermelho e Branco, pela Companhia das Letras.
Nesta entrevista, o psicanalista lembra que, desde os primeiros dias de vida, meninos e meninas são criados de forma diferenciada pela mãe e isso está na origem da distinção e dos papéis que cada um vai assumir na vida adulta. No caso da mulher, papéis que se dividem em três exaustivas missões: ser ao mesmo tempo dona de casa, profissional e amante. "O que permite viver bem entre três jornadas só pode ser uma real dimensão de paixão. É não estar em nenhuma delas por obrigação", diz Contardo. Leia a seguir os principais trechos da entrevista exclusiva para o Especial Mulheres:
Especial Mulheres - Comecemos pelas aspirações de homens e mulheres...
Contardo Calligaris - Todo mundo diz que a mulher tem uma jornada dupla, mas ela é tripla. Ser mãe ou dona de casa é diferente de ser amante, que por sua vez é diferente de ter vida profissional. Ela tem o desejo de conquistar um reconhecimento público e, para uma grande maioria, de se realizar como mãe. E sabe que ser amante não é uma sinecura, uma coisa automática, tipo às 23 horas sai uma transa. O homem não tem incumbência do lar, com raras exceções, e não acha que ser amante é uma vocação ou trabalho. Claro que há contradições, porque ele tem desejos aos quais já renunciou. O homem casado, diante da mulher e dos filhos, tem pretensão de ser aquele que se sacrificou pelo bem de todos.
A mulher tem mais chances de se realizar no trabalho?
Não necessariamente, até porque ainda tem uma série de obstáculos para ela. Estamos longe de um mundo no qual homens e mulheres são iguais no trabalho. Mas a mulher tem menos a sensação de ver renegado um desejo para fazer uma escolha profissional. Elas são mais próximas da vida concreta. Os homens vivem a metade do tempo em fantasias, às vezes inconfessáveis, tipo "o que vou fazer quando ganhar na loteria". Isso pode ocupar 30% do tempo deles, e não estou exagerando. A mulher pode até jogar na loteria, mas não vai perder tempo pensando em como gastar aquele dinheiro.
De onde vem essa diferença de mundos?
A causa é feminina. O homem é investido pela mãe da tarefa de ser a realização de todas as aspirações maternas. Essa é uma razão por que ele não para de sonhar. A mulher pode ter outros desejos, mas o fato de sonhar uma vida totalmente diferente não é uma coisa pela qual ela vá perder muito tempo. Ainda hoje as mães tratam meninos e meninas, desde bebê, de forma diferente. Não é porque ela não amaria sua filha, claro que não. Mas com a filha há um registro de rivalidade, que não existe com o menino. Uma das coisas mais complicadas na vida de qualquer mulher é a sua relação com a mãe. Ela não espera da filha que esta seja a realização de todas as suas frustrações.
Esse registro de rivalidade se reflete no trabalho?
Isso reflete entre as mulheres. Os homens também têm forte rivalidade no trabalho, mas o ciúme entre elas é fortíssimo. Só que é possível fazer disso um tema de reflexão. Acredito nesse suporte cognitivo, pois fará você pegar leve, pensar que não é bem assim. Tudo isso ajuda no convívio. A grande maioria das mulheres dirá que prefere um chefe homem a uma chefe mulher. Em geral, sabe por experiência que vai ser tratada melhor, com mais equanimidade.
Dá para equacionar a tríplice jornada?
O segredo para se dar bem é não estar em nenhuma das jornadas por obrigação. Ter vontade de ser amante, ter desejos sexuais fortes. Ter satisfação nas coisas do lar, na função de mãe. E no trabalho também. Não que a conciliação fique mais fácil só agindo assim. É muito difícil quando uma ou ainda duas das três jornadas são vividas num registro de chantagem. "Ó, meu Deus, esqueci de fazer aquilo." Mas há uma cobrança constante por ser feliz... Acho que não precisa ser feliz nunca. A felicidade é um conceito de marketing, que não corresponde a nada na vida real.
O senhor já definiu que a mulher do século 21 é aquela que é sem a culpa de ser mulher.
Durante muito tempo a mulher foi culpada de ser mulher. É como se carregasse uma imperfeição. Freud foi muito criticado nos anos 1960, mas, quando você o lê afirmando como se formam psiquicamente os dois sexos, tem-se a impressão de que o sexo feminino foi descrito negativamente, como aquele sexo ao qual falta um pênis. Muitas psicanalistas fizeram essa crítica, mas no fundo, e não que Freud adote essa visão, expõe um ponto de vista majoritário durante muito tempo. O movimento feminino dos anos 1960 teve uma função muito grande para mudar essa percepção. Porém isso não acabou.
Por que a mulher se cobra por ser mais competente?
Ela ainda sofre com a herança maldita, por ser "imperfeita". O tempo inteiro tem que mostrar que pode e é capaz. Já o homem, por ser homem, seria aquela coisa maravilhosa da mãe. No meu último livro, a personagem mulher de vermelho e branco, é brasileira que casou com um marroquino de ascendência libanesa, muçulmano. Durante a vida nunca tiveram problemas, porque não eram verdadeiramente religiosos. Mas com os filhos surgem os conflitos. Na tradição muçulmana, você amamenta todos os filhos, mas é importante que os varões sejam amamentados mais. Isso traduz a relação materna com o menino e a menina. A gente esquece de quanto isso é profundamente enraizado. Os homens continuam profundamente machistas, achando que a mulher não pode fazer tudo. E elas têm uma certa condescendência com esse comportamento, porque deixam os homens acreditarem nisso.
É conveniente por parte delas?
É cortesia, gentileza. Ela quer que os homens se sintam felizes. Os homens têm tanto medo de um rato quanto as mulheres.
Quais as expectativas em relação à mulher hoje?
Há uma expectativa de uma convivência de igualdade entre gêneros. Mas quem tem uma visão mais apurada poderia esperar que as mulheres aproveitassem melhor a diferença entre homens e mulheres. Ela é objetiva e concreta na visão do mundo. Elas são mais ricas como pessoas, corajosas, malucas. O fato de viver três jornadas faz delas pessoas mais interessantes. Em cada jornada, têm a sensação de que não está dando tudo de si nas outras duas. Ela inventa artes de viver que são mais fascinantes.
No mundo em que a novidade se impõe, a mulher está mais pronta para o novo?
Acho que sim. O homem está inserido em boa parte de sua vida numa fantasia, que, em geral, é repetitiva. A mulher é mais plástica e tem mais facilidade de enfrentar situações diferentes, se adaptar a elas e mudar rapidamente. Isso pode ser uma vantagem muito grande.
O que não se espera mais da mulher?
Pois é, isso qualquer mulher gostaria de saber (risos). A minha impressão é de que as coisas só se acrescentam. Os papéis delas crescem, se multiplicam sem que saiam os anteriores. Mas não se pode olhar essa tripla jornada como se fosse uma cruel imposição da sociedade e, em particular, dos homens. No fundo, a maioria das mulheres não quer renunciar a nenhuma dessas funções. Entre 1994 a 2004, trabalhei em Nova York e meus pacientes eram homens e mulheres do mercado financeiro. A exigência de trabalho era monstruosa e eu ouvia que aquele era o momento da vida delas em que fariam uma pequena fortuna, e aí se permitiriam formar uma família. Mas isso foi dramático porque chegaram num flash aos 40 anos para descobrir que já era tarde.
A sociedade pode vir, um dia, a perder o viés machista?
Gradualmente é o que está acontecendo. Ao mesmo tempo persiste uma desigualdade, que não tem a ver com a questão de salários, mas é uma desigualdade dos sexos. Seria triste imaginar uma sociedade isonômica. Desde a adolescência, eu nunca imaginava que o mundo mudaria tanto. Se alguém, nos anos 1960, me dissesse que as mulheres estariam no Exército, no comando de empresas ou governando países, eu diria que estaria maluco.
Assinar:
Postagens (Atom)